quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O Ancião


Muitas vezes temos dificuldade de encarar a velhice. Quando somos jovens estamos no auge de todo o vigor físico e mental, enxergamos a velhice como algo distante e indesejável. Poucas vezes paramos para pensar sobre nossa futura velhice. Quando crianças imaginamos o que é ser um adulto e fazer todas as coisas que só “gente grande” pode. A fase adulta chega e muitas vezes tememos envelhecer e até mesmo utilizamos de métodos para evitá-la.

Segundo Eugene Monick em seu célebre livro Falo- a sagrada imagem do masculino, apesar de todas as glórias prometidas com a chegada da sabedoria da idade os homens universalmente vêem a idade com a perspectiva da diminuição da força e do vigor, e a lamentam. É a perda do falo ctônico da juventude.

A face de Ancião é um grande mistério, pois quando jovens a enxergamos distante. Pois a sabedoria do envelhecer é diferente, porque possuí o conhecimento de todos os mistérios da vida, por ter vivido todas as suas fases. Por ter passado por todos seus ciclos.

Devemos honrar nossos anciãos e anciãs, pois são o reflexo do que nos tornaremos. Devemos ouvi-los mais, mesmo que às vezes pareçam antiquados e desatualizados, eles possuem a chave de todos os mistérios da vida por ter-los vivido.

Acima de tudo temos que aprender a envelhecer, vemos homens maduros andando com garotos bem mais novos e conversando como se tivessem a mesma idade, agindo como adolescentes, vestindo-se como eles e não aceitando a idade que tem. Honrar nossos ciclos é viver cada etapa de nossa vida de forma sagrada, aprendendo, crescendo e envelhecendo cada vez que um ciclo morre e outro renasce.

A natureza do Falo é cíclica, ele cresce se expande, chega ao seu auge e começa a decair. Todos nós passaremos por essas fases, por mais que inventem métodos para evitar o envelhecimento ou pílulas que permitam falsas ereções.

O Saging é o ritual de transição para a velhice, é quando o homem se torna um ancião e todos de sua comunidade o encaram dessa forma. Ele honra essa nova fase de sua vida, e aceita sua velhice como símbolo do aprendizado de tudo o que já viveu. E recebe o respeito dos mais novos que o vê como Sábio.

Não que um Ancião não terá nada mais para aprender, muito pelo contrário, da mesma forma que a nova geração tem que aprender com ele os segredos que só quem viveu conhece, ele também tem muito a aprender com os jovens, pois com eles nasceram uma nova concepção de vida, uma nova era. Isso proporciona uma troca que é muito especial para a formação de vida de um jovem.

Nas antigas tribos os anciãos eram os sábios que faziam parte de um conselho, eles indicavam o melhor período para guerrear, para plantar, para colher. Eles tinham o conhecimento de como fazer os grãos crescerem, o gado reproduzir e como agir quando isso não ocorre, pois possuem a sabedoria de muitos verões vividos. E muitas vezes eram os responsáveis para preparar os jovens para a vida.

Na Grécia Antiga, a transmissão do arete – conjunto de virtudes viris que incluía coragem, força, justiça e honestidade – só podia ser passado através de um homem mais velho, ou seja, um ancião.

Muitos não honram seus anciãos, os acham esclerosados e inúteis. Mas se não fosse por eles nós não existiríamos. Muito se fala sobre novas tecnologias, mas, se um hoje ancião, não tivesse inventado o rádio hoje não estaríamos na Era de celulares, smartphones e iphones.

Nós somos a continuação do que se foi no passado e devemos honrar os que viveram antes de nós. Aprender tanto com seus erros e acertos e não julgá-los como ultrapassados.

Não devemos temer a velhice. Quando olhamos para uma face de ancião vemos as marcas do tempo e devemos honrar essas marcas que ganhou, e ter consciência que um dia também carregaremos essas marcas conosco e teremos honra de cada uma delas. E procurar fazer com que a nova geração saiba o que foi viver nessa época. Procurar transmitir valores como a busca da sacralidade e o cuidado com nossa Mãe Terra.

No Hemisfério Sul, o sol alcançou seu ápice no Solstício de Verão. É o momento em que o Deus alcança sua maturidade, e o auge de sua força. Porém também é o momento em que começa a envelhecer e a caminhar para sua morte e renascimento.

É um período em que sentimos nossas forças revigoradas, pois o Sol influência nossa energia e instinto masculino. É o melhor momento para buscar crescimento e investir em novos projetos, sem esquecer, é claro, que o Deus caminha para a velhice, ou seja, devemos guardar um pouco dessa energia toda que o verão nos traz para nos alimentar durante a parte negra da roda do ano. Devemos guardar o calor e a energia do verão de nossas vidas para o outono de nossa velhice, para que mesmo enfraquecidos fisicamente sejamos fortes como sábios anciões, guiando os novos frutos da Terra, nossos filhos e netos. Ensinando-os desde cedo a honrar e viver seus ciclos.


Por: Natan Brith (Gawen Ausar)


Bibliografia:

FRIEDMAN, David M. - Uma mente própria: A história cultural do pênis, Rio de Janeiro: Objetiva, 2002

Fontes: MONICK, Eugene - Falo a imagem do Sagrado Masculino, São Paulo: Edições Paulinas, 1993, - (Amor e psique)

4 comentários:

  1. Para um homem regido por Saturno fica fácil falar da velhice...

    Você apesar de tão pouca idade vivencia isso muito intensamente, um quase ancião.

    E por tudo isso q te admiro e me orgulho de estar ao seu lado nessa jornada, mais um Litha, mais um Verão, mais um ciclo... te amo, e te amarei ainda quando tiver os cabelos branco!
    *.*

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  2. Parabéns pelo post e pelo blog! Lindo!

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  3. Belo post.

    E fica cada vez mais raro pessoas que valorizam os anciãos, não precisamos ir longe para perceber que há muitos idosos jogados ao esquecimento em asilos, sem a menor consideração que ali há uma historia de vida, de varias décadas, e muito conhecimento a ser passado.

    Tenha boas celebrações de final de ano, muita força para 2012.

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  4. É interessante como passamos a anciãos sem sequer darmos por isso. E passamos a eles mesmo sem idade, basta sermos vistos por um referencial diferente. A geração anterior à nossa já nos vê como anciãos, independentemente se com isso vem junto o respeito pelo saber acumulado. Ser ancião acaba por ser um posto e ser "velho" não é o único requisito para tal.
    Aqui fica uma história engraçada:
    A minha mãe, que é mais nova que o meu pai 4 anos, comentava em certa altura que no jornal vinha um velhote, um sexagenário e ía continuar a contar a história quando foi interrompida pelo meu pai que exclama: velhote???
    Ao que ela responde: sim, um sexagenário!
    E aí dá conta que tinha na altura 58 anos e que o meu pai tinha 62!
    A maneira como vemos os mais velhos só pode ser alterada se os mais velhos alterarem a visão que têm de si mesmos.
    Beijão meu Gawen

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