quarta-feira, 20 de julho de 2016

Androginia- O retorno ao Eu Natural e o Descondicionamento da Sexualidade


Questionar o que é masculino e o que é feminino nos leva a encontrar velhas receitas prontas, características que durante séculos são atribuídas a um determinado sexo. Porém quando observamos a nos mesmos encontramos tanto essas características ditas masculinas como as características ditas femininas. Se você é um homem passa a reprimir as características femininas encontradas dentro de você para tentar se enquadrar nesse perfil o que a sociedade denomina de masculino. Se vc é uma mulher fará o mesmo com as características masculinas dentro de si. Ambos sofrerão por não dar vazão a sua Natureza plena e verdadeira como seres completos e naturalmente andróginos.

A sexualidade é um fator que nos últimos séculos foi usado e manipulado para classificar as pessoas e condicioná-las a viver de um modo padrão. Se você é um homem hétero deve gostar de determinadas coisa que alimentem seu instinto agressivo e competitivo (futebol, lutas e filmes de ação), é imposto que seja viril, forte e financeiramente bem sucedido, não demonstrando fraquezas ou sentimentos. Sua função na sociedade é se casar, procriar, proteger e sustentar a sua família. Esse proteger e sustentar não de uma forma afetiva mas de uma forma controladora e rígida. Qualquer tipo de homem que não se enquadra nesse perfil é considerado um fracassado, frouxo ou "mulherzinha". As mulheres por outro lado são estimuladas a gostar de coisas delicadas, sutis, que alimentem seu instinto de cuidado é imposto que sejam passivas, belas e recatadas. As que não se enquadram nesse perfil são meretrizes, "caminhoneiras" ou encalhadas.

O pior de tudo é que as pessoas realmente acreditam nesse padrão imposto e buscam isso, buscam se enquadrar no que a sociedade impõe sem levar em conta o que elas realmente são. Essa busca quando não bem sucedida leva a diversos quadros de desequilíbrio psicológico, como a depressão e a obsessão. A própria mídia alimenta isso dentro das pessoas através de novelas, filmes e músicas onde pessoas ditas bem sucedidas são seus personagens centrais, fazendo com que a massa viva essa falsa realização através do voyeurismo sentados em frente seus televisores.

As pessoas são condicionadas a buscar a realização fora de si, através de bens materiais, popularidade e sucesso financeiro. Vivemos em uma era visual de aparências onde o mais importante não é nem o ter e sim o mostrar que tem. Isso tomou uma proporção tão absurda que as pessoas ostentam até o que comem compartilhando no Instagram foto do prato de comida. Para mostrar que tem.
Não importa se você nunca conversou com a pessoa que te adicionou numa rede social  que importa é você mostrar que tem "k" de seguidores. Não importa o fundo da foto, o que importa é a "self" com um sorriso "fake" para ostentar uma felicidade vazia que não existe. Muitas vezes não importa quem está pessoalmente do  nosso lado, damos mais atenção para nossos celulares e ao invés de conversar com os amigos ficamos fazendo cheking no restaurante mais uma vez para mostrar que tem.

Podemos chamar essas pessoas de vazias, pois ao mesmo tempo que estão nessa busca incessante demostrar que tem coisas exteriores, não possuem nada por dentro. Não possuem vínculos de amizade verdadeira, vivem muitas vezes em relacionamentos de aparência e o pior de tudo não sabem que são fantoches de um sistema.

Acredito que viemos ao mundo responder essa grande questão que sempre nos rodeia "Quem somos nós?" A mídia e até mesmo as religiões que servem para manipular a massa, tentam nos afastar o tempo todo dessa questão, seja nos distraindo com futilidades de programas televisivos, ou nos doutrinando a pensar que Deus é algo que está fora e que somos apenas "pecadores" que viemos nesse mundo para o sofrimento, visando uma libertação no pós-vida.

Mas se pararmos para voltar a grande questão "Quem sou eu?" mergulharemos numa busca interior e descobriremos que nenhuma resposta está fora e sim dentro, que Deus não está fora, mas dentro de nós e em tudo o que nos rodeia, teremos consciência de que somos condicionados e manipulados a acreditar que somos algo limitado "homem", "mulher", "hétero", "gay", "magro", "gordo" e que por isso temos que nos limitar a um tipo de comportamento muitas vezes negando nossos anseios internos. E a partir do momento que temos consciência de que somos seres ilimitados, múltiplos e que estamos conectado ao todo começamos esse processo de descondicionamento. Esse processo só se inicia a partir dos auto questionamentos e observação do nosso comportamento e da sociedade.

Não é um processo fácil, até mesmo porque não é um assunto popular, fácil de ser debatido em uma roda de amigos. As pessoas tem medo de descobrir quem elas são e não se verem mais enquadradas nesses perfis que a sociedade nos condiciona. Estar descondicionado causa medo em algumas pessoas que preferem viver um dogma que as disciplinem e a ouvir uma "palavra" que diz o que elas devem fazer do que se aventurar nessa busca interna do seu verdadeiro Eu.

É fato que conforme vamos quebrando os tabus que nos cercam vamos criando mais consciência de nós mesmos e aceitar aquilo ou quem somos é algo libertador. Eu durante grande parte da minha vida fui discriminado por ser feminino, essa opressão externa era tão grande que passei a me auto oprimir. na infância essa feminilidade se desenvolveu de modo tão natural que não me sentia diferente de ninguém, eu era simplesmente e puramente Eu. Porém quanto mais ia crescendo mais opressão ia sofrendo dentro de casa através da figura paterna e fora de casa seja pelos colegas de escola ou da rua e na Igreja.
De fato essa sempre foi uma ferida muito grande dentro de mim e sempre sofri diversas agressões verbais e físicas por ser assim, chegou ao ponto de eu me odiar por ser como eu era e pedir a Deus com todas as forças que mudasse o meu jeito de ser. 

Conforme fui crescendo fui rotulado "gay" esse era o meu rótulo. Já que não tinha o comportamento dito "masculino" não era considerado um "homem normal". E por muito tempo acreditei nisso, e achei que finalmente teria me encontrado que era "gay" e que na comunidade gay encontraria a aceitação e seria considerado normal. Mas a comunidade gay não é esse arco-iris todo colorido e purpurinado que muitos pensam e encontrei tanto preconceito e discriminação dentro da comunidade gay quanto fora. Esse inclusive foi um dos motivos que me fez abandonar o ativismo LGBTT, pois estava levantando um bandeira e defendendo uma comunidade que me oprimia tanto quanto a sociedade.

O fato é que a comunidade gay em sua maioria é machista. Não culpo os gays em si por isso, afinal somos frutos dessa sociedade machista e que nos marginaliza por não demonstrar um padrão. Porém isso não anula o fato de a maioria dos gays serem machistas. Vejo isso como uma tentativa de se enquadrar nessa sociedade. Então tudo bem eu ser gay desde que eu seja heteronormativo, tudo bem eu ser gay desde que não seja o passivo, tudo bem ser gay mas não curto afeminados. Ou seja o feminino dentro da comunidade gay é tão oprimido e inferiorizado quanto fora dela.

O paganismo por ter uma filosofia feminista e de resgate da valorização dos papeis femininos na sociedade e através da Deusa como a Grande Mãe que cuida e protege seus filhos sem julgar ou citar uma regra, foi um campo seguro para essa minha busca interior. Através do Sagrado Masculino, fui atrás desse ideal masculino diferente da sociedade patriarcal, fui buscar entender e me conectar com os arquétipos masculinos que existiam dentro de mim e puder ver como a minha feminilidade é natural, normal e bela. Hoje tenho um enorme orgulho de ser quem eu sou e a maneira como me expresso. Jamais serei um "machão patriarcal" mas me considero mais macho que muito homem. Por ter buscando incansavelmente dentro de mim o meu Eu Masculino e com isso feito as pazes com o meu Eu Feminino.

Por isso considero a Androginia como o processo natural do ser humano, todos somos homens e mulheres, todos somos masculinos e femininos. Nada impede uma mulher de ter bravura, independência, força e isso não a torna menos feminina. Como nada impede um homem de ser sensível, vaidoso e afetuoso e isso em nada inferioriza e diminui a masculinidade dele.

Somos serem muito mais complexos para sermos rotulados e não se permitam serem rotulados, não se condicionem a ser aquilo que a sociedade ou a sua família espera que você seja. Busque dentro de si o que você realmente é procure quebrar os tabus que nos oprimem, que se tornará pessoas mais saudáveis e felizes interiormente. Nossa sexualidade é livre e podemos expressa-las da maneira que sentimos vontade. Não me rotulo como gay, pois sou livre para amar e me apaixonar por qualquer pessoas independente do sexo dela, me sinto atraído por pessoas com ideias interessantes e opiniões sucintas. Não acredito no ideal de relacionamento romântico e me recuso a me condicionar a ter um relacionamento cheio de moldes e padrões. Acredito que estamos em um momento em que tudo isso tem sido questionado e que uma mudança verdadeira começa a acontecer. Iniciamos essa mudança no mundo dentro de nós. Busque ser você mesmo, conheça-te a ti mesmo.


Post inspirado através de reflexões da leitura do livro de Regina Navarro Lins "A cama na varanda - arejando nossas ideias a respeito de amor e sexo".
Indico essa leitura a todos que estejam buscando esse descondicionamento e que pesquisam sobre patriarcado e feminismo. É um livro fácil de ser lido, crítico e que nos levanta muitas reflexões a respeito que lidamos com nos mesmos e com  os outros.

P.S. Não achei a fonte do autor da imagem do post, encontrei no Pinterest. Caso alguém saiba o autor da imagem comente para eu dar os devidos créditos.

5 comentários:

  1. Somos seres espirutuais Vivendo Uma experiencia humana... Muito interessante o texto!

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  2. ... nossa, adorei o texto! realmente libertador. obrigado!

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  3. ... nossa, adorei o texto! realmente libertador. obrigado!

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  4. Boa Noite, Natan. Tudo certo? Legal o texto. :D Quanto à Imagem, não consegui encontrar, somente o nome da Ilustração: "hermaphrodite-376px-298x300.jpg". Abração.

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  5. Sem quis estudar o sagrado masculino para entender melhor a minha natureza masculina! Qual quer que seja a identificação que encontramos na nossa jornada sempre encontraremos novos encantamentos para a felicidade e a leveza resignifique a nossa existência!

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