quarta-feira, 20 de julho de 2016

Entrevista na íntegra a Revista Mandala

                          


Depois de um longo período de silêncio, estou aqui de volta inspirado para preparar novas postagens para os leitores e seguidores que me acompanham por aqui e que a um tempo estão pedindo novas postagens.

Recentemente dei uma entrevista para a revista online Mandala, a repercussão da matéria foi muito boa e resolvi postar a entrevista que dei na integra aqui para vocês.

Quem não leu a matéria, esse é o link da matéria completa: http://revistamandala.com.br/o-que-e-o-sagrado-masculino-e-como-ele-pode-torna-lo-um-homem-melhor/

Entrevista para a Revista Mandala por Edmar Borges


1. Quando você conheceu o tema do Sagrado Masculino e qual sua motivação para seguir conhecendo-o mais? 

R: Em 2009 enquanto aprofundava meus estudos sobre paganismo, magia e bruxaria no até então Grupo de Estudos Pagãos de Santos. As mulheres do grupo celebravam a Segunda Vermelha e tinham encontros regulares para estudarem e se conectarem com o Sagrado Feminino. Isso de certa forma me incomodava pois estava adentrando os mistérios da bruxaria e nesse ponto me sentia excluso por ser homem e não compartilhar dos mesmos mistérios. Foi então que o grupo de estudos entrou em contato com um coven e em um dos encontros ouvi falarem sobre Mistérios Masculinos, que eram restritos apenas para os iniciados da tradição deles, porém isso me fez pensar que existia então dentro da bruxaria mistérios masculinos assim como o feminino. E foi aí que resolvi pesquisar sobre tema. Nessa época ao jogar na busca do Google “sagrado masculino” e “mistérios masculinos” não aparecia nada sobre o tema, exceto algumas invocações e cargas do Deus de Chifres. Não havia nenhum site, blog, ou fórum que discutia o tema na internet para eu entrar em contato e iniciar minha pesquisa. Foi então que percebi que essa busca não seria nada fácil, porque muito já se falava do Sagrado Feminino mas não havia nada sobre Sagrado Masculino disponível na internet. Foi através de livros que encontrei conteúdo a esse respeito. A primeira vez que me deparei com o termo Sagrado Masculino foi através do livro de Eugene Monick “Falo: A Sagrada Imagem do Masculino”. Esse livro foi o maior divisor de águas da minha vida, pois ele trouxe os questionamentos que estavam latentes dentro de mim como “O que torna um homem um ser masculino?” e “Qual a diferença entre masculinidade e patriarcado?” e me fez encontrar essas respostas através do estudo da natureza do falo sob uma visão da psicologia. Minha principal motivação nessa busca era pelo fato de se gay e ter minha masculinidade questionada desde a infância por conta de ser efeminado. Antes de estudar e vivenciar os mistérios da verdadeira masculinidade se alguém falasse que eu era efeminado isso me feria profundamente, pois desde pequeno ouço falarem “anda igual homem”, “fala igual homem”, “senta igual homem”, “não pode dançar porque não é coisa de homem” entre aquelas piadas e apelidos nada carinhosos que colocavam simplesmente por eu ter um comportamento diferente do padrão imposto pela sociedade do que é masculino. Tinha uma intuição que dentro da bruxaria conseguiria fugir desse padrão e encontrar o verdadeiro significado do que é ser homem, sem os julgamentos cristãos e patriarcais, pois desde que iniciei meus estudos sobre paganismo passei a questionar esses padrões impostos pela sociedade machista, já que me identificava como homem mas longe de ser o “machão” modelo do sistema patriarcal.   

2. Qual a natureza do Sagrado Masculino, na sua opinião? Digo isso em termos de nomenclaturas e definições. Seria uma cultura, um estudo, uma corrente religiosa, uma vertente espiritual? Como você enxerga esse tema enquanto categoria do pensamento? 

R: O Sagrado Masculino existe desde as épocas remotas de nossa história e através de estudos 
antropológicos, mitológicos e teosóficos conseguimos analisar as diferentes formas que o homem se relacionou consigo mesmo como ser masculino e sua conexão com o Sagrado. A religião influenciou e ainda influência a visão que nossa sociedade faz de masculino, porém a conexão com o sagrado não está ligado a uma religião o Sagrado Masculino é um movimento de correntes filosóficas do estudo arquetípico do Homem em uma busca pelo autoconhecimento.   

3. Para você, qual a principal importância do autoconhecimento e da sabedoria que acompanha as descobertas com relação ao Sagrado Masculino? O que essa investigação pode trazer de benefícios para a vida dos homens e suas relações consigo mesmos e com os outros? 

R: A cura do homem. É inegável que vivemos em uma sociedade doente onde o materialismo da Era Capitalista cega as pessoas, impedindo-as de se conectarem consigo mesmas e buscar a felicidade dentro de si, a mídia manipula a massa para acreditar que a felicidade e a plenitude está fora em bens materiais e no consumo. O autoconhecimento só é possível através da autoanálise, se conhecer e se analisar se voltar para o sagrado que existe dentro de si gera o descondicionamento, a cura de feridas psicológicas e emocionais que nos são impostas pela sociedade, pela nossa família e circulo social e até por nós mesmos. 

4. Quais as principais considerações práticas do Sagrado Masculino? Como funcionam as comparações com o ciclo solar, quais são as possíveis interpretações comportamentais e de que maneira esse conhecimento interage com a ação humana? 

R: Minhas práticas do Sagrado Masculino são relacionadas aos ciclos solares e lunares. Não relaciono apenas o homem com o seu eu masculino relaciono ao feminino também. O patriarcado é um sistema cruel aos homens por fazer com que neguem e oprimam parte de si mesmos, pois acredito que todo ser humano é um ser polarizado e através do estudo da psique masculina e de práticas meditativas podemos nos conectar plenamente com ambos os polos que somos feitos. Não existe uma regra, um molde ou uma verdade absoluta de como trabalhar com o Sagrado Masculino, gostaria de deixar isso claro, pois atualmente vivemos um momento em que mais homens tem buscado uma filosofia de vida diferente do sistema dominante patriarcal e cada dia tem surgido mais blogs, sites, círculos e covens trabalhando com  o Sagrado Masculino. Alguns com bases mais sólidas na psicologia e antropologia e outros com bases não tão sólidas. Não julgo e nem muito menos desprezo a maneira de cada um utiliza para se conectar com o sagrado, só acho desnecessário algumas pessoas as vezes quererem impor um padrão ou a sua verdade acima dos outros. É muito bom ver cada dia mais homens despertando para um pensar diferente a respeito da masculinidade e sobre si mesmos e o principal foco disso é gerar uma mudança na maneira de pensar e agir dos homens, não os colocando abaixo e nem acima do feminino mas como iguais. Meu trabalho com o Sagrado Masculino por muito tempo foi uma busca individual e assim que encontrei algumas respostas internas passei a aplicar a outros homens que tinham essa mesma busca através de um Círculo de Homens onde discutíamos sobre a imagem do masculino, nossas vivencias pessoais, estudos mitológicos e vivências meditativas guiadas por mim. O trabalho se transformou com o passar do tempo conforme ia me aprofundando mais em pesquisas e vivências e foi evoluindo junto com a minha evolução pessoal, até que se consolidasse em um modelo prático que apliquei para grupos diferentes de homens.  
Como disse anteriormente nossa sociedade atual busca mais fora do que dentro as respostas para nossos problemas, com o Sagrado Masculino faço esse trabalho inverso, a busca é interior. O primeiro passo dessa busca é entender que como seres da natureza vivemos em ciclos como a própria Terra. Esses ciclos são diversos e os classifico como macrociclos, mesociclos e microciclos. Os macrociclos estão relacionados ao ciclo de nossa vida – nascimento, infância, adolescência, vida adulta, velhice e morte. Os mesociclos estão relacionados ao movimento solar e da Terra as estações do ano, ao ápice e ao declínio de energia do Sol. E os microciclos relacionado ao movimento da Lua, ou seja, os meses. Através do Sagrado Masculino ensino os homens a entenderem, respeitarem, honrarem e celebrarem os seus ciclos. Para as mulheres é mais fácil se conectar com seus ciclos por conta da menstruação, os homens podem aprender a medi-los através de métodos relacionados a astrologia ou numerologia.  Os arquétipos masculinos são facilmente relacionados aos macro e mesociclos (Criança, Jovem Guerreiro, Rei e Sábio Ancião), no entanto nos microciclos são sorteados arquétipos masculinos para serem meditados e trabalhados nesse curto período. Através do estudo desse arquétipo e de meditação de como ele se manifesta em sua vida e em sua personalidade faz com que o homem se conecte com o sagrado, analise e entenda suas vivências e busque as respostas para seus anseios pessoais dentro de si. Os mesociclos são celebrados através do estudo e de meditações dos arquétipos relacionados ao período do ano. Geralmente esse estudo é iniciado após o Solstício de Inverno, onde através de textos e meditações faço com que os homens regridam a sua infância analisando de forma psicológica e comportamental sua Criança Interior. Buscando encontrar as feridas que nos foram causadas nesse período encarando não só a plenitude de seu arquétipo infantil como também suas sombras. Esse é o primeiro passo para a cura, pois muito das dores psicológicas e emocionais que carregamos em nossa vida adulta tem origem na infância e por não sabermos lidar com isso negamos ou simplesmente escondemos no esquecimento. A próxima etapa é a Cisão quando através de meditações e vivências rituais rompemos com os traumas da infância. Analisamos e identificamos nossas inflações e castrações e buscamos curá-las através de atitudes e práticas de nosso dia-a-dia. Diria que essa é a parte mais difícil e dolorosa do processo, muitos homens não conseguem desapegar dos velhos conceitos do passado por estarem muito impregnado em sua psique. Muitos não conseguem encarar suas sombras e medos infantis e acabam ainda ficando presos na infância. O Sagrado Masculino é um caminho de transformação se não realizamos a cisão com o velho eu, não conseguimos realizar a transição para a verdadeira masculinidade que é a próxima etapa de estudos e meditações do mesociclo.  Na Transição fazemos o que infelizmente a sociedade deixou de fazer pelo homem, um rito de passagem. Não sabemos dizer exatamente quando deixamos de ser criança e nos tornamos homem, diferente das mulheres que tem uma referência biológica para o início dessa transição através da menarca. Nesse mesociclo após romper em definitivo com a infância é passado através de textos e vivências meditativas o estudo e a análise dos arquétipos maduro do homem. Nessa fase também é essencial que o homem conheça seu corpo e se conecte com a sua energia sexual, utilizo do estudo e exercícios práticos de tantrismo e taoísmo que levam ao controle da energia sexual assim como a retenção da ejaculação. No mesociclo seguinte a sombra arquetípica é estudada. Não a sombra infantil que já deve ter sido 
superada no período da Cisão e sim a sombra arquetípica do homem maduro. Encarando nossas sombras conseguimos não teme-las e sim compreender quando ela nos impulsiona a agir de maneira descontrolada. Devemos aprender a controla-la e estar conscientes de quando estamos em desequilíbrio, analisando o que causou esse desequilíbrio e de que forma agir para se equilibrar consigo mesmo. Nessa fase também aprendemos a como lidar com a nossa contraparte feminina. Muitas vezes o tempo de um mesociclo completo não é tempo suficiente para passar por todas essas vivências de maneira plena. Cada um tem o seu tempo de evolução e um caminho de transformação requer mudanças de paradigmas e comportamentos que pode ser muito difícil para alguns homens.  

5. Você tem algum conselho para quem está começando a aprender sobre o Sagrado Masculino, especialmente para os homens?

R: Meu conselho é ESTUDEM! Muitos homens começaram a me procurar pedindo orientação, principalmente depois que escrevi o blog Falo – O Sagrado Masculino, porém a grande maioria não se dedicava no estudo, e nas meditações. Vivemos numa era em que as pessoas esperam que os gurus e os sacerdotes deem todas as respostas para seus questionamentos internos, assim de forma pronta e instantânea sem nenhum esforço ou trabalho. E não é assim que funciona muito pelo contrário, o Sagrado Masculino causa mais questionamentos do que dá respostas. É necessário que cada um busque essas respostas dentro de si. Então se vocês se depararem com esses cursos “fast food”, ou esses pseudo sacerdotes que dizem que com tantas parcelas de não sei que valor você será iniciado no Sagrado Masculino, desconfiem. A conexão com o sagrado não está em nenhum curso, em nenhum sacerdote está dentro de vocês. Vai de cada um querer, buscar, estudar e meditar para encontrar essa conexão verdadeira.  

 6. Gostaria que você comentasse um pouco sobre o equilíbrio entre os Sagrados Masculino e Feminino. Na sua opinião, inclusive, essa determinação dualística (homem e mulher) pode ser limitada, por excluir manifestações de gênero que se alternam e não necessariamente habitam apenas um dos campos (masculino ou feminino)? 

R: A questão de gênero é bem polêmica ainda mais nesse momento que estamos onde a diversidade está cada vez mais livre para se manifestar. Como disse anteriormente acredito que somos seres polarizados, não somos 100% masculinos e 100% femininos. O Sagrado Masculino e Feminino são uma coisa só, pois um existe dentro do outro e em separado. O que acontece é mulheres tem um corpo biológico, mental e emocional diferente dos homens e vice-versa e por isso que existe esse estudo e vivências de forma separada. Porém é essencial para o homem ter conhecimento sobre o Sagrado Feminino. Isso é fundamental para ele aprender a valorizar a imagem do feminino, aprender a lidar melhor com as mulheres e respeitar os ciclos e as necessidades femininas. Da mesma forma as mulheres precisam conhecer o Sagrado Masculino, tanto para criarem seus filhos dentro de um ideal diferente de masculinidade livre dos conceitos retrógrados do patriarcado e aprender sobre como lidar com os homens e com o masculino que há dentro delas mesmas.  Não importa o gênero, somos seres muito mais complexos para sermos classificados apenas pelo nosso órgão sexual e a conexão com o sagrado não se limita ao sexo.  

7. Você conhece o Deus Azul, que seria o “Sagrado Andrógeno”? Conheci recentemente essa 
personalização e achei muito interessante por ser inclusiva. Caso conheça, gostaria que comentasse o que pensa sobre a “criação” recente desse deus e como isso é válido (ou não) para o Paganismo em geral e para os movimentos sociais de minoria sexual e de gênero

R: Tenho uma opinião bem polêmica a esse respeito. Logo no início da minha busca pelo Sagrado Masculino me deparei com Dyan Glass ou Deus Azul citado no mito da criação da tradição de Victor Anderson ele é a face primordial do Deus que ao desprender da Deusa ainda não assumiu totalmente a forma masculina. O que foi usado pelos homossexuais como uma face gay do Deus. Além dele foram surgindo outras divindades que foram ganhando essa categoria contemporânea de Deus Queer ou Deus Gay. Isso só reflete a busca do ser humano por encontrar algum padrão no plano divino que justifique o seu modo de ser. É mais fácil achar um Deus que seja gay como eu para me conectar com o sagrado, do que ir muito mais a fundo na minha psique e entender o porquê eu sou gay e o que isso influencia na minha maneira de ser e no meu contato com o sagrado. Ter um Deus gay que me aceita e pronto é confortante perante uma sociedade construída com base na heteronormatividade com um Deus único e poderoso que condena os gays. Por isso não julgo aqueles que prestam cultos aos deuses queers, só tenho a opinião de que isso é limitador. Ser homem não está ligado a maneira como você manifesta a sua sexualidade, muito menos ao seu gênero é algo além disso. O que os gays precisam entender é que sua sexualidade é apenas uma parte pequena do que você é, não se permitam serem rotulados por isso, não tenham medo de explorar os aspectos arquetípicos que vocês possuem achando que ser masculino é ser hétero porque não é isso. Se abram para a conexão verdadeira com múltiplas faces do Deus que descobrirão quão múltiplo vocês são.  


Imagem: Macho Alfa 2009 Escultura de Resina de Daniel Castro Camelas

Um comentário:

  1. Olá, Natan!
    Adorei todos os seus textos. Tenho buscado informações sobre Sagrado Masculino e encontrei pouca coisa perto do que há sobre Sagrado Feminino.
    Bom ler um homem falando em primeira pessoa sobre isso.
    Vc menciona o livro de Eugene Monick “Falo: A Sagrada Imagem do Masculino” e achei a referência muito interessante, mas não o encontro nem para vender (está esgotado) nem para baixar. Você tem conhecimento de algum lugar que o disponibiliza digitalmente?

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